
Espero que todos tenham tido a oportunidade de ler o livro Getting Real (Oficial, Tradução BR), uma publicação feita com diversos colaboradores da 37signals. Eles chamam “Getting Real” de um Processo para Desenvolvimento Ágil de Aplicações Web.
De fato é algo nessa linha mas prefiro chamar essa obra de Coletânea de Experiências em Desenvolvimento de Aplicações. É uma mudança sutil, mas quero dizer que Getting Real não é uma metodologia nos termos clássicos como o Unified Process. É de fato uma coletânea, um conjunto de idéias, pensamentos, recomendações e muito bom senso para desenvolvimento de aplicações em pequenas equipes (a 37signals em si pode ser considerada uma pequena empresa, com cerca de uma dezena de funcionários).
O grande tema do livro, e o lema de Jason Fried, é que para vencer a concorrência você não precisa fazer mais (overdo). Na realidade, a maneira de vencer muitas vezes é fazendo menos (underdo) e melhor. É a filosofia por trás de aplicações como Basecamp contra pacotes robustos e tradicionais como Microsoft Project.
Eu comprei e li o livro no meio de 2006, antes de terminar de escrever Repensando a Web com Rails. Achei o texto simples, acessível e que seria muito útil para jovens desenvolvedores e mesmo gerentes de TI com pouco tato em processos de desenvolvimento de software. Pouco tempo depois, publiquei um post no meu blog, no dia 26 de outubro, divulgando o livro. Porém, estamos no Brasil, e sabia que poucos ultrapassariam a barreira de ler o original em inglês.
Já havia trocado alguns poucos e-mails com David Hansson por causa do livro então, em 8 de novembro, tomei a liberdade de fazer a proposta:
... Changing subject: I was delighted to see the excellent Getting Real book online. I had purchased the PDF version long ago. I’d like to know if 37signals would allow for a translated copy, in Portuguese. As I told you before, most brazilian programmers can’t read English, at all. My idea is to set up a Wiki so others could collaborate on an online Portuguese-only version. I believe that would not hurt international sales of the book, I just need approval so I don’t break any copyrights. Do you think you can help with that? It would make it that more easy to make 37signals known here in Brazil.
E ele respondeu no mesmo dia:
... The final material has to be hosted on the 37signals site, but we’d love to get it translated to Portuguese. So if you want to setup a private wiki that people you know who are interested in translating the book can access, that’d be great. Then you can ship over the final material when it’s done and we’ll publish it with your names as translators.

Continuamos negociando nos dias seguintes, foi quando resolvi usar o mesmo processos deles: traduzir o livro dentro do Writeboard. Ele me deu uma conta básica com permissão para gerar quantos Writeboards fossem necessários dentro de uma conta Backpack. Vieram também a restrição que o material em tradução não fosse divulgado ao público até o final. Expliquei os detalhes no dia 13 de novembro, no post onde fiz o primeiro “Call to Arms”, como o Ronie chamou na época. A recepção ao chamado foi muito bom e no dia seguinte publiquei a primeira lista de tradutores voluntários. Agora era mãos à obra.
O processo de tradução deveria ser simples, com o mínimo de restrições possíveis. Todos eram voluntários, tinham pouco tempo livre, nunca nos conhecemos pessoalmente. Haviam limitações, mas felizmente o modelo online era exatamente do que precisávamos. Como disse antes, já havia criado uma conta Backpack que serviria como repositório do projeto, configurei diversos Writeboards – um para cada sub-capítulo do livro -, configurei um Google Groups privado e adicionei todos nesse grupo. No fim, o grupo aumentou até 25 membros. Claro, nem todos puderam participar, mas o que vale é a intenção.
Daí em diante, cada um escolhia um sub-capítulo para traduzir e eu fazia o compartilhamento no Backpack. Como o sistema não era rígido, significa que qualquer um poderia editar qualquer coisa. Para evitar problemas, usávamos o Google Groups: a pessoa se candidatava a um capítulo, eu “oficializava” pelo grupo e todos ficavam sabendo. Dessa forma minimizamos o risco de duas pessoas traduzirem o mesmo capítulo.
Durante a tradução surgiam muitas dúvidas. A idéia não era traduzir palavra por palavra, como um Google Translator ou Babylon fariam. Minha recomendação era que o texto mantivesse seu estilo “coloquial”. O texto em inglês usa muitas gírias, expressões mas sua essência precisava ser preservada. Se não me engano a primeira grande discussão foi a respeito da frase “So what should you do in place of a spec?”. Começou com “Então o que deve ser feito em vez de uma especificação funcional?”, foi para “Então o que você (ou se) deve fazer invés de uma especificação funcional?” e assim por diante. Depois veio uma discussão se deveríamos usar a palavra “estória”. E houve mais como “tradeoffs”, “on the fly”, “change on a dime” (que também deu bastante discussão). Uma interessante foi “web app”, não sabíamos se deveria ser “aplicativo web” ou “aplicação web”, e a segunda prevaleceu.
No dia 27 de novembro publiquei o primeiro status para informar ao público a que pé andava a tradução (lembre-se que foi uma requisição da 37signals que a tradução não fosse aberta ao público). Ainda havia muita coisa a se fazer. Os trabalhos continuaram a andar razoavelmente bem, mas aí passamos do meio de dezembro e as coisas começaram a andar mais lentas. No fim, eu tinha diversos capítulos com status de reservado há muito tempo e poucos ainda estavam traduzindo. Lembro que durante a semana do feriado prolongado de 25 de janeiro resolvi acelerar e traduzi os capítulos restantes. Alguns dos últimos moicanos do grupo voltaram e terminaram suas respectivas traduções também.

Eis que em 18 de janeiro fui surpreendido quando no blog Signal vs Noise foi publicado uma lista de comunidades em diferentes países traduzindo o Getting Real. Imediatamente mandei uma mensagem ao Matt para incluir o Brasil na lista. Fui surpreendido uma segunda vez quando, durante nossa conversa, finalmente surgiu o local definitivo onde ficaria o texto final: eu precisava colocar tudo que tínhamos acumulado na minha conta Backpack em outra conta e dentro de outra formatação. Lembro que passei dois dias abrindo texto a texto e realizando um “copy and paste” monstro entre os Writeboards.
Finalmente, em 22 de janeiro, havíamos conseguido chegar ao ponto que chamei de “Release Candidate 1”, ou seja, 100% dos textos traduzidos, dentro da formatação final, mas ainda pendentes de revisão. Mandei um segundo “call to arms” ao Google Groups para requisitar voluntários a revisores. Postei esse status no meu blog e muitos se prontificaram a ajudar, alguns foram tradutores na primeira etapa também.
Fui surpreendido uma terceira vez pela 37signals quando, no dia 1o de fevereiro, resolveram divulgar todas as traduções de todos os países de uma só vez, em vez de esperar cada um terminar o seu. Foi a primeira vez que o público brasileiro pôde ver o que havíamos feito e o feedback foi muito bom depois que divulguei no blog que dentre todos os países estávamos muito na frente. A maioria ainda estava nos primeiros capítulos e os mais adiantados não passaram do sétimo capítulo, e como se tudo isso não bastasse, nos comentários do post da 37signals, duas pessoas comentaram que a tradução em alemão e em croata não estavam muito boas ainda.
Aconteceu um pequeno escorregão no dia 2 de fevereiro, quando surgiu a única grande polêmica dentro do nosso grupo: a tradução da expressão “old school”. Ficamos na dúvida se “velha escola”, “moda antiga” ou “velha guarda” ou outra coisa seria adequado. Alguns levantaram a questão da regionalização, alguns gostaram, alguns desgostaram, alfinetadas foram lançadas. Felizmente foi algo rápido, mas como o público adora assistir discussões (vide BBB), aí vai um comentário mais ao fim da discussão:
... É incrível o rumo que todas as discussões em listas acabam tomando. Sempre parece que se é levado pro lado da competição. Acho incrível que em nenhum dos lugares citados por vc se tenha ouvido falar na expressão, ainda mais por ser algo americanizado os grandes centros sempre aderem. Eu sou de Bauru, interior de Sp, e isso é bem comun no caso. Mas tudo bem… isso foi só pra finalizar a discussão …
Eu queria terminar as revisões até o dia 9 de fevereiro mas, como todo projeto, atrasamos novamente. Hoje é 14 de fevereiro, ainda resta meia dúzia de capítulos pendentes de revisão. Fiz o último “call to arms” e se ninguém mais se manifestar até o fim do Carnaval, pretendo encerrar os trabalhos.
O trabalho foi muito interessante. No início, imaginei que o livro poderia ser traduzido em um mês mas agora, exatamente quatro meses depois, vejo que fui muito otimista. De qualquer forma, foi um trabalho desenvolvido de maneira colaborativa e nesse ponto eu diria que a experiência foi bastante interessante. As pessoas não tinham nenhuma obrigação mas mesmo assim se comprometeram e ajudaram muito. Se eu fosse fazer isso sozinho ainda estaria na metade da tradução, ou teria perdido muitas noites em claro. A qualidade do trabalho foi bastante boa como todos podem atestar.
Fica registrado aqui no RubyOnbr também meus agradecimentos aos tradutores: Fabio Akita, Herval Freire, Juraci Krohling Costa, Marcello Rocha, Diogo Bispo, Adriano Mitre, Ricardo Augusto e Rodrigo Kochenburger.
E também aos revisores: Davis Zanetti Cabral, Mateus Del Bianco, Diogo Bispo, Gustavo Cardoso e Ricardo Augusto.
Ainda temos alguns dias, vamos ver se terminamos os trabalhos até lá! E a todos da comunidade: ajudem a divulgar esta obra, é uma leitura muito agradável, com diversas idéias para usar na prática e que pode ajudar a abrir os olhos de muita gente, incluindo formadores de opinião dentro de sua empresa, faculdade ou onde for.
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